Montadoras estão mais otimistas que mercado financeiro

Em painel da Fenatran, executivos projetam crescimento do Brasil acima de 1% no próximo ano

Nelson Bortolin

Um dia após o mercado projetar pela primeira vez o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 2022 abaixo de 1%, executivos de montadoras de caminhão se mostraram um pouco mais otimistas durante o painel “Olhares para 2022: Transporte Rodoviário de Carga”, realizado de forma digital na tarde desta terça-feira (16).

Segundo o Boletim Focus, divulgado na véspera pelo Banco Central, o Brasil vai crescer 0,93% no próximo ano. Há bancos privados prevendo recessão no próximo ano. Mas, entre os executivos das montadoras, a maioria aposta num PIB de 1% a 1,5%. E há quem acredite num crescimento de até 3%. É o caso de Roberto Cortes, da Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO).

O painel faz parte da Rota Digital Fenatran, evento bienal que não pode ser realizado presencialmente neste ano devido à pandemia. Além de Cortes, participaram do bate-papo os executivos: Luis Gambim (DAF), Márcio Querichelli (Iveco), Roberto Leoncini (Mercedes-Benz), Silvio Munhoz (Scania) e Wilson Lirmann (Volvo).

“Eu sou um pouco mais otimista que o mercado financeiro”, disse Cortes, que também fez projeções melhores que os colegas para a Selic, taxa básica de juros da economia. Ele estimou uma taxa de 7% ao ano em 2022, enquanto os demais projetaram 11%. Já o Focus estima que a Selic, que hoje está em 7,75%, vai terminar este ano a 9,25% e o próximo a 11%.

A maioria dos executivos acredita que a inflação de 2022 irá de 4% a 5,5%. E o dólar ficará no mesmo patamar de hoje, a R$ 5,50.

Particularmente, as expectativas em relação ao mercado de caminhões não são ruins, mas a falta de componentes que a indústria vem enfrentando nos últimos meses é tida como um desafio. Juros mais altos também são um empecilho para um melhor desempenho do setor. Já a entrada em vigor da legislação ambiental Proconve 8, ou Euro 6, em 2023, pode alavancar as vendas de caminhões em 2022.

“No ano que vem, talvez tenha um efeito de pré-compra devido ao Euro 6”, afirmou Lirmann. Para ele, a taxa de juros em ascensão é um fator que pode atrapalhar. “Aí entra uma matemática que pode frear um pouco.”

O representante da Mercedes-Benz acredita no crescimento do mercado apesar da economia como um todo. “No ano que vem vamos crescer mais por osmose”, disse Leoncini. “Os juros vão atrapalhar muito principalmente no segmento de seminovos e usados. Quando a gente tem descolamento de preços (entre novos e usados), a gente tem redução nas vendas de novos.”

Já Munhoz vê as vendas de caminhões atreladas à economia em geral. “Se tivermos 1,5%, 2% de PIB, o mercado de caminhões não vai ter crescimento significativo.”

A Iveco está otimista para 2022. E acredita que haverá pré-compra devido ao Euro 6. “Teremos muita turbulência (por ser ano eleitoral), mas estamos otimistas”, declarou  Querichelli.

Gambim, da DAF, aposta no crescimento da agricultura em 2022 para impulsionar o mercado de caminhões, mas admite que o segmento de veículos usados tem “dado sinal de fraqueza”.

EURO 6

Os representantes das montadoras acreditam que um programa de renovação de frota capitaneado pelo governo seria uma medida mais eficiente para o meio ambiente e a economia do que a entrada em vigor do Euro 6. Mas todos se dizem preparados para  a nova legislação.  “Eu já passei por tantos euros. A parte ruim é o impacto no custo. Infelizmente é algo inevitável. Sempre uma nova tecnologia traz efeitos no aumento de custo. E isso dificulta a renovação da frota”, disse Cortes.

“Sem dúvida o custo dos veículos será maior. Perderemos de novo uma grande chance de ter um supermovimento de renovação de frota, que teria impacto mais significativo no País”, declarou Leoncini.

Munhoz concordou que a nova legislação torna mais difícil a renovação de frota, mas ressaltou que o Euro 6 traz um benefício importante na redução de poluentes. “A velocidade que o mercado vai aderir (aos novos caminhões) depende da economia.”

O representante da Iveco também disse que o impacto ambiental seria maior se houvesse um programa de renovação de frota. “Em vez de implantar os Euro 6, poderiam tirar de circulação os Euro 0, Euro 2, Euro 3. E substituí-los por Euro 5. Mas as regras do jogo são essas”, afirmou  Querichelli.

Já Gambim disse que a DAF está preparada para atender à nova legislação, que vai contribuir para termos um “país mais limpo”.

Sobre a possibilidade de os transportadores anteciparem compras de caminhões em 2022 para fugir do aumento de preços dos veículos Euro 6, não existe muita certeza. “A lógica nos diz que sim (haverá antecipação de compras). Mas nós não vivemos uma situação normal”, afirmou o representante da VWCO. Ele citou a falta de componentes enfrentados pela indústria. “Deveríamos estar suprindo o mercado com mais volume”.

Limarnn disse que os caminhões pesados ficarão entre 15% e 25% mais caros. “Nos mais leves imagino que (o impacto do Euro 6) seja maior.”

O executivo da Mercedes-Benz afirmou que acredita em pré-compra, mas ressaltou que também pode ocorrer um movimento de postergação de compra por um período de 2 anos ou mais dependendo do cliente. “O cliente só compra se tiver receita para pagar o caminhão. A realidade é dura devido ao aumento do preço do diesel e o custo de financiamento (por causa do aumento dos juros)”.

FIINAME

Com a elevação dos juros, o executivo da Scania afirmou acreditar no aumento da participação do BNDES no financiamento de caminhões. Ele lembrou que, nos últimos anos, devido à baixa da Selic, as linhas de CDC ganharam espaço e chegaram a 80% do total. “Com a subida da Selic, o pessoal começa a voltar para o Finame. Com a perspectiva de aumento dos juros, devemos ter de novo o Finame tomando conta dos financiamentos.”

Gambim ressaltou a Conferência do Clima encerrada no final de semana na Escócia e a crescente preocupação em relação ao meio ambiente. Ele disse que a DAF trabalha em várias frentes no desenvolvimento de tecnologia para combustíveis alternativos. E citou os caminhões elétricos e de células de combustíveis, projetos desenvolvidos em conjunto com a Toyota. “A partir do momento que o mercado demandar, a DAF estará pronta para fazer.”

Já Cortez citou estudos da associação das montadoras, a Anfavea, para ressaltar que o diesel será o combustível predominante no transporte de longa distância por muito tempo, diferentemente do mercado de distribuição, para o qual a VCWO oferece o elétrico e-Delivery. “Na longa distância, vai ser difícil bater o diesel por falta de infraestrutura para recarga no Brasil.”

otimistas

Leoncini disse que a tecnologia 5G vai representar um salto para a entrada no Brasil de novas tecnologias já disponíveis na Europa. “Temos os caminhões Arocs e o Actros preparados para algum nível de automação. Mas precisamos de infraestrutura. Após a chegada do 5G, vamos poder fazer introduções rapidamente.”

Munhoz destacou a experiência da Scania no desenvolvimento do caminhão a gás. “Temos visto a procura por grandes embarcadores comprometidos com a redução de emissões. A coisa começou a ganhar corpo.”

Leoncini disse que a Mercedes-Benz vai testar um caminhão a base de hidrogênio a partir de 2022 na Europa.

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